sábado, 26 de março de 2011

Circulação

Confesso: Circular em Montreal ainda não é fácil pra mim.Sempre mais fácil circular de metrô, ou seja, pelas veias internas da cidade. Pelo subcutâneo, pela ‘coisa’ em paralelo. Digo veias internas porque existem as ruas e estas poderiam ser classificadas como as veias externas da cidade. Eu prefiro classificá-las como rios de concreto. Onde se pode circular mas, com cautela. Um tipo de rio caudaloso em que deve-se seguir a corrente, ou esperar que ela passe.
Mas não se preocupem, não se corre um risco maior em ficar parado orbitando os transeuntes. Ao revés: há tanta beleza nos diversos tipos humanos, nas indumentárias que cobrem os corpos enquanto o vento não as fazem voar com seu bailado imprevisto! Vermelhos, verdes, azuis ... tudo ‘chamando’ em meio ao concreto-cinza. Outro dia vi uma echarpe tão bonita no pescoço de alguém que tive a impressão de ouvi-la sussurrar algum segredo. Ou era eu delirando, querendo pôr mais vida em tudo...
Mas este post é para falar também de outro tipo de circulação: o nosso ritmo interno. Falo agora do sangue. Esse nosso líquido salgado, vermelho e quente. Os mais sensíveis podem encerrar a leitura do texto aqui – chateio não ;) – acontece que, quando uma espécie do sul como eu fica algum tempo exposta a essa temperatura de seção de sorvete de supermercado, é fácil sentir que o organismo concentra suas forças. As partes descobertas – ou vitalmente menos importantes – ficam geladas como coração sem carinho.  Algumas regiões da face, as orelhas, as pontas dos dedos... E quando se vai novamente a um ambiente interno e aquecido, o corpo registra a informação e dá pra sentir o nosso ‘rio magenta’ voltar com tudo a toda velocidade. Do Mar Morto ao Everest. Fica tudo tão quentinho e vivo que beber chocolate quente dá até alguma volúpia, e os dedinhos do pé parecem brinquedo novo. É Montreal, aumentando a minha coleção de sentidos.



(Dedicado a S. Joseph M.)

quinta-feira, 24 de março de 2011

L'hiverrrr

O inverno me parecia antes uma ideia abstrata emoldurada em branco e frio. Uma paisagem do Maurice Cullen, uma comédia romântica inglesa de natal,enfim, um pano de fundo fantástico para ilustrar  contos de La Fontaine  ou  romances russos.
Confesso que fiquei impressionada quando li em algum lugar que o Maquiavel morreu numa viagem durante o inverno, ou seja, frio. Simplesmente de frio. A estória pode não ser verdadeira, mas o inverno é algo que impressiona em potência e beleza no primeiro olhar.
Há um quadro do Joseph Mallord William chamado ‘Steamer in a Snowstorm’ de 1842 que faz pensar na força verdadeira e extraordinária desse capricho do céu. Mas, calminha aí, a neve também é festa luminosa. Quando vem de noite e era tudo negro e comum, ela vem como um cetim opaco...fazendo cócegas nos cílios, caindo pela pontinha do nariz...brilhando tímida e encontrando o chão.
Então de manhã ela é toda um lençol branco que guarda a paisagem para a Primavera. Em diversas camadas de carinho e recolhimento compulsório. É um manto lúdico. Sob ela descansam todas as sementes e todas as promessas. Só pra lembrar que estamos entre os outros animais desse plantinha azul que devem obediência à natureza.


 Montreal fazendo cara de Conto de Allan Poe!

domingo, 20 de março de 2011

Montreal II ou 'Polyvox'

Eu não li o livro 'Comer Beber Rezar' de Elizabeth Gilbert mas, como muita gente, adivinhe: vi o filme :P. Para quem não leu/viu, a autora (dentre outras coisas) apresenta a teoria de que cada cidade tem sua palavra. Eu acho mesmo é que algumas cidades têm mais de uma. Assim, quando a fumaça do novo se diluir diante dos meus olhos eu terei outras palavras para acarinhar a "Bela Província".
Neste momento pra mim, a palavra é 'Polyvox'. Porque me vem o poema de Waly Salomão musicado por Adriana Calcanhotto - eu ouço essa canção quando estou no metrô e parece bem combinar! Porque são muitas as vozes que me dizem quem é Montreal: russos, irlandeses, libaneses, quebequenses, malgaxes, brasileiros,argelinos, senegalenses, peruanos, chineses... todos dizem Montreal ao seu modo, com sua múscia própria (que alguns preferem chamar de sotaque). Música de quem sabe que aqui se canta em todo e qualquer ritmo.

Montreal I

Aos que me perguntam as primeiras impressões da cidade, eu respondo que também me pergunto. As cidades que visito pela primeira vez, vão no início me dizendo coisas, me seduzindo aos poucos - foi assim com João Pessoa/PB por exemplo - me fazendo descobrir. Montreal ainda não. Talvez pelo fato de ter colhido muitas informações sobre a cidade (e durante algum tempo) que Montreal tenha ficado diluída em algum cantinho da minha mente. Escondida como se já estivese lá desde um momento que não posso precisar. Daí ela ficou já sendo minha inconscientemente. A frase não é pretenciosa - embora pareça - é que ela ficou sendo minha mansamente, com vontade consentida de ambas as partes :). Ainda não desfizemos nenhum mistério, os olhares ainda nem se cruzaram, ela - como disse - ainda não disse nada mas ao menos acho que já sente vontade de dizer.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Le bonhomme de neige

É como chamam o boneco de neve por aqui. Numa traduçãozinha isso pode ficar como "o bom homem de neve". Acordei outro dia e vi uma figura dessas feita pelo vizinho da frente de casa. Acabei perguntando a algum local porque chamá-lo "bom homem", que alguns podem também traduzir como o "homem feliz" da neve. Pergunto que otimismo liguístico é esse para nunca ter o "mal homem da neve" por exemplo. Aquele espalha a gripe, que sopra vento frio, que faz a gente escorregar no gelo das calçadas....
O meu entrevistado riu e disse que o homem da neve tem sempre um sorriso no rosto, braços sempre prontos para abraçar, olhar acolhedor (eu, só vejo gelo). Então tá, né? Apresento-lhes esse meu vizinho de ocasião. Ele usa até óculos escuros estilo anos 80, tem chapéu esquisito mas tem bom coração. Pena que o sol não vá torná-lo mais corado e só simplesmente mais um número, mais um na lista de desaparecidos das grandes cidades do mundo. :)

domingo, 13 de março de 2011

Arte por aí

O inverno em Montreal atrai os olhares para as galerias internas da cidade. Inverninho no fim, liquidações de fins de estação, gente que viajou para o sul se aprumando para voltar... tem ainda o quase-pertinho-do-fim da exposição Art Souterrain 2011. Algumas estações do metrô guardam pérolas para os olhos e a alma, modos de interação para descontrair os músculos (o artista Francis Montillaud com seu "Projection pour sacrifice" fez um daqueles bonecos para treinos de boxe, só que pra lá desorridente), e outras coisas do gênero como a lindeza do "Éloge de la Veillesse" feita pela artista Mouna Andraos inspirado em um poema do Grande Herman Hesse, e o "Histoires du Ciel Contées Sous la Terre" de Lalie Douglas. Este último estava na Estação Central de trem.Parece uma paisagem de um lugar para nunca se ter pesadelos e pensar que tudo é bom e macio.Se é que se pode ter um sonho macio... Ela fez miniaturas com luzinhas, algodões e pequenas árvores em madeira.E tudo quase que escondido do olhar mais desatento. Tinha que olhar pra cima, procurar no céu da estação uma instalação em miniatura, um cenário para bolo de festa...pra mim, claro com recheio de chocolate.




terça-feira, 8 de março de 2011

Chalé/Chalet

Uma amiga querida que mora por aqui, me chamou para ir a uma Chalet bem afastado da cidade de Montreal. A paisagem de neve parece um grande e fofo edredom branco sobre o chão.
O Frio quase não chega se você está bem agasalhado. As árvores levam um manto branco, outras ficam só em galhos como que hibernando para a novíssima primavera.
No início me senti como no filme Fargo – assasinatos, crimes quase insolúveis, detetives, neve... essas coisas paranóicas e importantes... :) – depois, me senti como no filme O Declínio do Império Americano, com aquele sorriso inteligente que os canadenses têm conversando sobre alguma coisa, acolhendo os que acabam de chegar, essas coisas.
A neve – é bom saber – é também espetáculo para eles. Assim como pra nós os dias de sol coloridos e quentes. Reclamamos do calor, mas estamos com olhos de ver a presença da beleza antiga e familiar. Um dos presentes, ao me ver desperta falou: ”Venha ver a neve, é tão bonita”.O flocos caindo na janela grande da sala, pareciam uma grande vitrine para o espreguiçar do olhar novo. Gotas de quase-gelo caindo e açucarando as árvores, a madeira azul dos telhados, o carro laranja parado lá fora, acabei saindo para dar uma olhada e tirando umas fotos.





Post n° Zero

D. Celeste sentou ao lado da minha poltrona e foi logo perguntado se eu ia na excursão para Gramado, como o resto da maioria que ocupava o avião com destino a São Paulo. Eu respondi: “Canadá” e ela logo sorriu dizendo: “Vai dar tudo certo”.
Núbia, no aeroporto, ao perceber minha cara de besta quando a balança revelou mais de 32 kg em uma das bagagens também sentenciou: “Calma, vai dar tudo certo menina.”
Foi assim durante os mais recentes dias. É um tanto de gente que me ligou, mandou mensagens no celular, escreveu mensagens virtuais ... que eu podia aqui expor em ordem alfabética, mas antes de chegar ao ‘B’, com certeza, já teria os olhos pra lá de mareados e estragaria todo o teclado do meu computador. :) Abraços, carinhos, silêncios apertados,beijos looongosss e estalados. Pensamentos bons que chegaram a mim e ainda não param de chegar. “Gostaria de dar a vocês o que sinto como uma flor” Clarice Lispector.

Obrigada, viu?