terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Fête de Neiges

No parque Jean Drapeau – ele foi prefeito de Montreal de 1954-1957 e também de 1960-1986, é o responsável pela construção do metrô da cidade – tá rolando a Festa da Neve. Um parque inteirinho festejando a neve e tudo o que ela traz de bom: esculturas no gelo, tirolesa, tobogã, patinação, comidinhas pra esquentar e dancinhas  bizarras... são as minhas experiências antropológicas, minha gente!
A cabana à sucre – algo como cabana de açúcar – é uma espécie de armadilha gastronômica. Lembram da casinha de doces com que a bruxa má seduziu João e Maria no conto dos irmãos Grimm? É mais ou menos isso: uma cabana de charmosíssima madeira cheia de coisinhas gostosas feitas do Xarope de Bordo – o Sirop d’Erable – praticamente o dendê daqui :P
Pra minha sorte era só uma espécie de quiosque...ufffaa! Só tinha o picolé de Xarope e chocolate quente – ai,ai. Eles despejam o Xarope no gelo e vão enrolando como uma espécie de picolé megaaçucaradooo. Não custa provar, né? ;).

Escultura de gelo: sorria antes de derreter!

Meninada ansiosa pra pegar seu gelinho pro concurso de esculturas.

Armadilha pra pegar quem é louco por doce!
A maternidade dos tais 'picolés' de sirop!

Olha com carinho: tem uma tirolesa lááá no fundo ;P

O rio São Lourenço e a cidade que tem me acolhido como niguém.

Irmãos gêmeos ativar:"Forma de um pavão de gelo!"

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Nível da Rua

Um amigo colombiano me ligou agoniado:
– Delaná, preciso de um favor seu urgente!
Pensei que era caso de vida ou morte, mas tava valendo, afinal amigo é pra essas coisas
– Vou colocar aqui uma música pra você ouvir e me dizer o nome do cantor e onde posso encontrá-la
– Sou toda ouvidos, falei
Pra minha surpresa, depois da terceira tentativa de apurar os ouvidos no meio de uma tempestade de neve ... caminhando e deslizando pela calçada, identifiquei o ‘meliante’: era o tal do Michel Teló com a sua “Ai se eu te pego”. Não consegui falar de tanto que ri :P
– Delaná?
– Tou aqui, tou aqui. Mando pro teu e-mail assim que chegar em casa o vídeo da música, tá bom?
E desliguei o telefone. Chegando em casa, procurei o vídeo no youtube, enviei o link. Pronto missão finalizada. Mas o telefone toca:
– Delaná, traduz a letra da música pra mim? Ai, ai, ai...  fui traduzindo pro francês, o que dava pro inglês...entre intervalos cheios de gargalhadas. Daniel perguntou se eu gostava da música. Eu falei que era uma dessas ‘músicas-chiclete’ que viram febre, a ‘Macarena’ do momento. Não vale a pena torcer o nariz, é o nível da rua, popular até a tampa. E vai chegar até você, não dá pra fugir!
Depois disso, comecei a prestar atenção... em lojas do centro já cheguei a ouvir a canção 2 ou 3 vezes. E na rua também, num carro que passava. E... ‘tsc-tsc’ não eles não eram brasileiros,viu?
Outro amigo – ah, os meus amigos :) – no Brasil, me mandou um link por e-mail com um vídeo... perguntando se eu tinha tomado um café com a Luiza. “Oi? Que Luiza, minha gente?” cliquei no link e vi o famoooso vídeo do ‘papai-luiza’ promovendo o tal apartamento e falando da filhinha expatriada. E tudo depois virou uma avalanche de # e de curiosidades sobre a mocinha. É o nível da rua de novo. Que vem como uma onda gigante! E mesmo longe do Brasil, dá pra ‘mergulhar’ um tiquinho nessa loucura non sense. Não mudou minha vida, mas antes de dormir pensei que isso de uma canção e uma publicidade serem O tema num país de dimensões continentais é massa :). Será que não quer dizer que somos o tal gigante diverso, mas único, digo, em unidade mesmo?
Dificilmente um tema seria uníssono aqui no Canadá, um tema tão frívolo e brincalhão como esse. Se o fosse, seria ou no Québec ou na parte inglesa imantada aos EUA. Debaixo dos meus lençóis eu também pensei que dificilmente – antes da internet  – um tema vindo do nordeste (a publicidade é da linda Paraíba) criaria ‘moda’ no Brasil voltado quase sempre para o sudeste. Meu coração de nordestina riu e me disse “Boa Noite”. ;)

Desculpem o 'flash' que deixou a placa com olho esbugalhado ;)

'Saída' 'nível da rua': a inscrição na parede do centro esportivo que frequento inspirou este post!

sábado, 21 de janeiro de 2012

Neve

É só deixar ela vir, com o Inverno que esfria os ossos. Um imenso lençol branco cobrindo tudo, acalmando os corações, espriguiçando o tempo. O segredo é deixar o Inverno entrar, convidá-lo pra tomar um café, ou um chocolate quente. É que ele fica acanhado,gente ;).
Na neve acumulada como areia de praia, caminhar pelas ruas exige uma cadência diferente. Mais lenta, mais firme... permitindo a  gente formular pensamentos como quem tece uma manta em crochê: Devagarzinho e sempre. Um pensamento aqui, outrozinho lá .. e num final de um bloco, você já criou uma nova teoria para "quem somos, de onde viemos e para onde vamos". Vale também colocar a língua pra fora pra sentir o gostinho do gelo que cai do céu e dar uma 'roubadinha' entrando num café na próxima esquina pra esquentar as mãos rapidinho.
É só deixar ele vir.

Vaca atolada de neve no Museu de Belas Artes!

Corações congelados!

O lençol branco que cobriu tudo!

Ursinho perdido depois de uma tempestade de neve :P

Cute!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Calendário

Mudamos o calendário para 2012; mesmo assim devo dizer que por aqui existem vários calendários. Não saberia precisar quantos, mas ao menos dois ou três...
Numa papelaria, fui procurar uma agenda para 2012. Para minha surpresa encontrei algo mais do que aquela agendinha começando em janeiro e terminando em dezembro do mesmo ano. Tinham outras com o início em agosto e o término em agosto do ano seguinte. Ou até de setembro a setembro.  É que o ano pode também começar (ou recomeçar) em setembro, quando termina o verão e recomeça o ano escolar, ou alguns voltam depois das férias. O assunto não é novo, eu sei... mas ainda me faz pensar... por exemplo, como o fato de terminar e começar o ano tem a ver com estado de espírito além de tudo.Com foco, com interesses e a rotina que se leva.
No fundo, isso quer dizer que se você está com espírito de começo, vá em frente. Pouco importa a data. Claro, tem o ano civil, que começa em janeiro, né? As contas vencem, os contratos, os exames médicos, prazos de toda ordem. E no outro dia, é novo amanhecer, como sempre.
Do lado de cá da laranja, as pessoas – ao seu modo – também fazem festa no 31 de dezembro. Há sim os fogos de artifício – ao contrário do que afirmou um amigo, pensando não haver possibilidade da queima por causa das temperaturas baixíssimas – sim! fogos, gente na rua e celebração. Ah, não me olhe assim, vai...você também não achava isso não? Só não dá pra dormir na rua e acordar de ressaca na areia da praia. A uma certa altura, você vai pra casa – a sua ou a de alguém – porque o frio pede. Daí é só transferir a festa pra dentro. Dentro de casa, dentro de si mesmo. E sem a ditadura de ter que vestir branco ou roupa nova. Tem que ser o que você quiser, e o que você quiser não obriga necessariamente o outro a fazê-lo. Mas, quer vestir branco?Porque não?Vá lá! Seja Feliz!
Amanhã é o ano novo, mas é também segunda-feira ou terça-feira. E eu não digo isso porque eu não estou de férias não,viu? ;). Pensar num dia simples é bom pra que a ‘mudança’ ou a ‘proposta de’ venha naturalmente. “Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro, março...” *
Mal posso esperar pelo ano novo chinês no próximo dia 23!Assim posso adiar o início da minha promessa de comer menos chocolate! :P

* Rubem Braga, no seu livro ‘A Borboleta Amarela’

Esse calendáriozinho aqui vai de Agosto a Julho!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Natal Branco?


A previsão do tempo é uma instituição aqui por cima. Não é coisa simples como “Amanhã chove ou faz sol” ou meio-quase-sofisticada como a tábua de marés que tem destaque nos jornais de João Pessoa (Paraíba) – mergulho, aí vou eu! Eles aqui explicam tim-tim-por-tim-tim como vai ser a chuva, se vai cair como gelo e formar uma fina camada nas calçadas, se vai ser mesmo neve que cai e derrete formando poças, o escambau.Cada fenômeno metereológico tem seu nome específico e dá já uma ideia do tormento que vai trazer ao simples mortal que precisa sair de casa. Se vai cair de bunda no chão (já foi liberado a palavra ‘bunda’ aqui no bloguinho,rs) se vai só ‘patinar’ até bater a cara no poste, ou se só vai sentir aquela gota de chuva fria que parece respingo de espirro de urso polar :).
Euzinha já experimentei todos esses fenômenos, mas o fenômeno maior é treinar o ouvido pra ouvir a reclamação geral : A gente vai ou não vai ter um “Natal Branco”? Deu no jornal, e não só nos boletins metereológicos. Essa é a queixa atual dos montrealenses de todo canto. A neve é um presente de papai-noel para os adultos – já que eles têm vergonha de mandar carta para o velhinho torturador de renas!(brincadeirinha, gente).As crianças, claro, também estão loucas pela neve. Mas ainda estão extasiadas com a chegada das férias, e vão ganhar presentinhos de todo jeito,né? E os adultos? Natal branco e natal verde têm a mesma magia? Lembram do Esqueceram de Mim II (Lost in New York - 1992)? O personagem do Macaulay Culkin tinha tanto horror à  ideia de passar um natal sem neve na Flórida que voou pra Nova Iorque numa confusãozinha na hora do embarque no aeroporto. Com flocos ou sem flocos desejo a você uma noite boa. E um Réveillon também.
Para meu espanto, Réveillon aqui é o dia seguinte à ceia de natal e não a noite do dia 31 de dezembro. Sutileza que gostei de aprender. O ano novo é o ‘Jour de l’An’. Pra mim tá bom, eu aceito. Aceito também que você não esteja nem aí pra essa coisa de comprar presentes. Mas fico torcendo daqui que você pense coisas boas no dia em que o papa resolveu escolher para o nascimento de JC – assim como nos outros, viu? Sim, porque segundo relatos históricos* o pequeno nasceu no final de setembro. Tudo bem pra mim também :). E que isso – pensar em coisas boas – nada tenha a ver com religião e sim com coração aberto. Seja você mulçumano; candomblecista; cristão católico, batista ou hortodoxo; budista; bah’ái; adorador do arco-íris... bicho preguiça.
Porque Natal pra mim, desde criança, sempre foi Tempo de Manga. Com cheiro da fruta espalhado pela casa. Toalha de renascença tirada do armário só pra espraiar na mesa grande da sala. Hora de repintar o muro grande e os portões da garagem, cheiro de cloros nos cabelos. Nadinha de neve, mas com o mesmo querer bem.


* O Livro de Ouro do Universo - Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
E o crédito da figura ;)
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"Tá vazio lá"

Foi num restaurante italiano na região de concentração italiana, a chamada Petite Italie* que encontrei Mohcine, meu caro amigo marroquino. Com Moh – já ouviram falar que intimidade é um caminho sem volta? – a conversa fiada girou em torno do Brasil, porque... claro eu provoquei, né? Ele vai fazer a sua primeira visita à terra do ziriguidum agorinha que vem, e antes de tocar os pés onde canta o sabiá, eu quis saber o que é que ele pensa do lado de lá.
A primeira vez que ouviu falar do Brasil foi em noventa e quatro, na copa do mundo dos EUA mas o cabra torcia pra Itália porque era fã do Baggio. Dizem as más línguas que passou a ‘fé-ruim’ pro Mick Jagger e foi assim que o cara fez estória da Copa da Alemanha em 2010...;) E...tadinho como se não bastasse essa bola fora, torceu para o Marrocos em noventa e oito na copa da França. Aproveitando que ele não lê português, olha essa pintura do Rivaldo no primeiro gol da partida de final 3x0 pra nossa canarinho ;P. Depois dos eventos traumáticos :P, uma vez na Austrália em visita ao irmão, Moh ganhou de presente a amarelinha da seleção... daí virou a casaca e é Brasil desde criancinha :).
Curiosa, quero saber mais onde anda a Hy Brazil no seu imaginário. A primeira palavra que lhe vem à mente é exótico. Pra quem vem de Casablanca,o que é ser exótico...deve ser coisa boa né?! O Brasil é a simpatia em pessoa, quer dizer, em país segundo o grande Moh. Tanto que ele tem vontade de aprender a língua, numa estratégia de sorver mais a cultura e de finalmente...tchã-nã-nã...virar brasileiro. “Pra se tocar mais o País, chegar além da superfície, é preciso falar como brasileiro, porque tem coisa que não se traduz”. Falou bonito o rapaz. Falou sobre cinema também, de ter visto Cidade de Deus do nosso Meirelles e ter ficado bem impressionado.Na conversa fiada não faltou o tema desigualdade social que nos faz bem Brasil (ainda). Mesmo sem nunca ter ido ao Brasil, Moh já sabe que a nossa dança é assim: louca e linda, insegura e admirável, graciosa mesmo. Num forró que às vezes perde o ritmo, ou num sambinha que às vezes dá nó no pé.
A primeira frase que o nosso marroquino aprendeu em português? "Tá vazio lá". Me tirou uma gargalhada quando me disse isso, mas depois dessa conversa fiada achei que faz sentido. Embora pleno de alegria existe algo de vazio e melancólico no Brasil, como um balão vazio de final de festa. O lado bom é que no outro dia, começa tudo de novo, mesmo – e talvez sobretudo – se nada mais fizer sentido. Tristes Trópicos**?

* Pequena Itália
**Do original francês 'Tristes Tropiques' do Claude Lévi-Strauss, publicado em 1955 sobre as sociedades indígenas brasileiras.


Moh: Africano do Norte, já é quase Brazuca, né gentem?